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Aprendendo a ensinar e estudar na convivência com o COVID-19

Aprendendo a ensinar e estudar na convivência com o COVID-19

Aprendizado | 23/07/2020

Passamos meses em isolamento social e ainda mais anos aprendendo a conviver com ondas do vírus Covid 19. Existem consequências que já começamos a perceber e outras com as quais apenas nos resta imaginar. Porém, entre estes dois campos, há as tendências em construção nesta transformação social mundial e dúvidas que apenas quando enfrentarmos os novos fatos encontraremos as respostas.

Examinemos como serão nossas práticas educacionais a partir desse período. Comecei a lidar com estas transformações em março, quando corpos docentes começaram a ter diálogo constante em suas instituições de ensino sobre plataformas para aulas não-presenciais, por ensino remoto e disciplinas on-line.

O digital e o ensino remoto

Subitamente, centenas de professores universitários foram capacitados e puseram em prática aulas remotas e disciplinas on-line sem tempo para novos intermináveis debates sobre a construção de metodologias para EAD. A reposição de aulas perante faltas, o atendimento de monitores de disciplinas, as atividades extracurriculares passaram a contar com diversas plataformas, testadas e selecionadas entre estudantes hoje.

Durante semanas, mantivemos agendas de lives no Instagram, no Youtube e eventos de porte diverso no Zoom, no Teams, no Meets, quando aprendemos que qualquer um com algo a dizer pode em minutos ter um card digital divulgando seu diálogo. A plateia tem sido maior do que eventos gratuitos presenciais costumam atrair, o que os tornam mais isolados do que o isolamento social atual. Quando a emissão de certificados dessas atividades se tornar uma rotina, a comunicação científica se desburocratiza e apenas eventos de grande porte merecerão grandes auditórios e valores de inscrição.

Os cursos superiores têm a exigência pela legislação educacional de 200 horas de atividades extracurriculares. Será preciso muito esforço de mercado para que estudantes se desloquem para apresentar trabalhos, assistir palestras, participar de grupos de trabalho em eventos caros em outra cidade (quando a programação noturna não for um chamariz especial) quando a produtividade das plataformas de videoconferência democratizou o acesso a eventos durante meses de isolamento social.

Esforço e empatia

Reconhecemos com paciência a boa-fé e o bom-senso nas adaptações devido a parentes, amigos, vizinhos contaminados, alguns com sequelas e outros deixando saudades. A empatia precisa acompanhar estas relações. É preciso lembrarmos no futuro próximo que, tendo sobrevivido juntos ainda que afastados de uma crise (em todas as perspectivas do que se pode chamar de crise) precisamos viver de um novo modo a nossa cultura acadêmica.

Um dia desses, mais cedo ou mais tarde, teremos a reabertura gradual dos espaços públicos e a possibilidade da volta às aulas presenciais. Não serão possíveis aglomerações, portanto é impensável contar com processos seletivos (ENEM, vestibular) com centenas de vagas que encherão salas de aula. As expansões dos campi de instituições públicas e privadas não terão mais como ser as mesmas dos últimos anos. Ganharemos mais pólos para apoio aos estudos à distância e menos áreas de convivência para estudantes em cursos presenciais.

Questões sobre uma nova infraestrutura e novas arquiteturas são mais urgentes do que dar significado a um “novo normal”. Se não há como contar com 50 estudantes em uma sala de aula, sendo preciso manter um a dois metros de distância entre as cadeiras, a receita cairá e os processos seletivos serão mais competitivos, com menos vagas. Mas, ter estes alunos, mesmo que em menor número, convencê-los a não migrar para cursos não-presenciais desde o começo, será um imenso novo desafio. Os cursos preparatórios para concursos passaram por essa fase há poucos anos, tornando-se escassos aqueles que ocupam salas de aula. Agora, que aulas remotas tornaram-se uma rotina didática, é preciso repensar o que pode atrair alguém para dividir sala física com outras pessoas.

Mesmo pensando nas mudanças físicas nos ambientes educacionais, antes precisamos refletir sobre como chegar até eles. Se nos transportes públicos ainda será preciso contar apenas com pessoas sentadas para evitar aglomerações, toda tolerância será necessária com atrasos físicos nas salas de aula. Até porque, com menos estudantes por sala, será possível aos professores conhecerem o corpo discente como há muitos anos não acontecia. A compreensão que foi preciso praticar com plataformas caindo será exercida com a dificuldade de transporte, com a atenção para sequelas na família ou em si mesmos. Não será tão difícil, pois os professores sentirão o mesmo, ou nada terão aprendido com a pandemia pela qual passaram.

Novos cuidados, novas habilidade e novas competências

O debate diuturno sobre livros físicos e ebooks ganhou novos matizes emergenciais. Não é imaginável manter salas para estudos em grupo sem haver intervalo entre períodos de reserva da sala para a limpeza higienizando o espaço contra o vírus.

Do mesmo modo, será preciso contar sempre com balcões para pedir exemplares para funcionários, sem livre acesso às estantes. Apenas assim os bibliotecários poderão garantir a higienização contínua de livros e periódicos físicos, para que, de mão em mão, eles não transmitam o vírus, Bibliotecas digitais ganham em facilidade de acesso e conforto.  Os acervos digitais de instituições privadas, em franca expansão, não terão mais narizes torcidos de educadores insatisfeitos com a preferência de gestores por ebooks. Tornou-se uma medida de saúde e prevenção contra ações judiciais pela contaminação de estudantes e para onde eles levassem os livros físicos.

A conclusão dos cursos superiores não fica distante dessas súbitas e imensas adaptações. Dois aspectos tornam urgentes as mudanças: as atividades de disciplinas práticas e a entrega de trabalhos de conclusão de curso.

Com a prática disseminada do home office como nova cultura profissional, ensinar os estudantes a manusear carimbos e papéis torna-se risível de tão distante da realidade que encontrarão no mercado de trabalho. Em qualquer empresa júnior, núcleo de prática ou outro departamento para prática profissional, é preciso ensinar técnicas de mediação à distância, como lidar com videoconferências, ecommerce, como escolher entre plataformas, noções de digitalização e edição de imagens para os estudantes poderem dar sentido profissional aos diplomas físicos que receberão.

A tecnologia nos faz conviver há anos com notebooks sem entrada para CD/DVD, mas instituições de ensino superior ainda querem um anacrônico disco para guardar uma cópia digital de trabalhos de conclusão de curso. Um passo necessário para o aprendizado com as transformações sociais desses meses é desburocratizar a atividade acadêmica.

Menos assinaturas físicas, mais assinaturas digitais (se temos e-mails institucionais, isso não é um desafio tão grande) e a abolição definitiva de carimbos de um cartorialismo medieval tipicamente brasileiro. Se todos nós, professores e estudantes, temos há meses usado plataformas para aulas remotas, nada impede que torne-se comum que bancas de conclusão sejam por videoconferência. Assisti a quatro bancas em mestrado neste formato, em diferentes plataformas, desde março. Contar com membros externos nas bancas torna-se ainda mais prático e econômico para os programas de graduação e pós-graduação à medida que torna-se uma rotina. Os chats trazem a participação posterior da plateia que, nas bancas presenciais, não têm qualquer oportunidade de manifestação. Para as fotos com a banca, o comando printscreen com uma edição básica do resultado pode trazer bons registros.

Não nos isolamos no cotidiano educacional, apenas nos afastamos. Há meios para nos encontrarmos para a troca contínua de ideias. É preciso admitir que um novo contexto de práticas acadêmicas já surgiu e que, muito rapidamente, precisamos aprender a conviver com ele.

Sérgio Coutinho dos Santos

Professor universitário faz um tempo

coutinhosergio@live.com

@prof.sergiocoutinho

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