SURURUTALKS


Inovações, futuro e o contexto das empresas tradicionais.

Inovações, futuro e o contexto das empresas tradicionais.

Aprendizado | 28/07/2021

Nesse texto trataremos sobre como as inovações desenham o futuro e o contexto das empresas tradicionais.

Inovações são eventos futuros que geralmente surgem de necessidades do contexto empresarial do presente. Inovações surgem de combinações de recursos produtivos das empresas e refletem a construção do futuro a partir do contexto ambiental que a empresa enfrenta no presente. Ao longo desse texto trago a ideia de Penrose (2006), de que a inovação é resultado da combinação de recursos produtivos empresariais por meio da inteligência e capacidade de gestão da empresa.  

Muitas inovações ou mesmo a adoção de novas tecnologias por parte das empresas (considerada inovação também), é resultado da ocorrência de eventos traumáticos. Esses eventos invariavelmente deixam marcas em qualquer pessoa, então, considerando aqui que as empresas são organizações formadas por pessoas, um evento traumático para todos, como a pandemia de COVID19, deixará marcas em muitas empresas que resistiram ao momento, particularmente as pequenas e médias empresas.

Mas, esse evento capital para muitas empresas, está se mostrando uma oportunidade para uma transformação das muitas médias e pequenas empresas sobreviventes a essa pandemia. Embora as pequenas e médias empresas tenham sido bastante resistentes às novas tecnologias, em parte devido às restrições de recursos e escala limitada, as circunstâncias criadas pela pandemia se tornaram um forte incentivo para que essas empresas adotem uma mentalidade digital e evoluam em seus modelos de negócios para competir em um futuro pós-COVID.

Administrar uma pequena empresa não é uma tarefa fácil, especialmente devido ao cenário competitivo em constante mudança de hoje. Muitos pensam em empreender como estilo de vida, mas eventos de sucesso como o vivido pelo personagem de Ingrid Guimarães no filme De pernas por ar, não são naturais e, se mostram como são de fato, fantasia.

É mais comum encontrar atualmente médias e pequenas empresas que não sejam frutos do um “estalo” mágico de uma ideia matadora, mas que estejam competindo com grandes empresas que estão migrando seus modelos de negócio para baseados em tecnologias. São várias empresas, como as gigantes conhecidas como Mercado Livre, MAGALU, AMAZON, MRV, setores não muito visíveis do grande público como o de planos de saúde, cuja consolidação está ocorrendo baseado em grandes investimentos em tecnologia e teve na fusão dos grupos HapVida e NotreDame a parte mais visível ultimamente.

negócios inovadores

Além dessas empresas, o surgimento de startups nativas digitais que impões novos padrões competitivos que muitas das empresas tradicionais não conseguem sequer entender, como a Loggi, que é uma empresa de logística com entregas por meio de bicicletas e sustentável, a AMBAR, que está inovando na construção de habitações de baixo custo, ou a Nonogreem, startup desenvolvida nos laboratórios da Universidade Federal de Santa Catarina e que opera na fronteira tecnológica de nanopartículas, insumos complementares para várias indústrias no mundo, e a Cargo X, conhecida como o Uber dos caminhões, é um marketplace de fretes que conecta empresas individuais com carga a ser transportada a caminhoneiros autônomos e ociosos.

Até aqui tento deixar claro a importância da inovação para o sucesso das empresas e que o contexto ambiental importa, e muito, para incorporar tecnologias, novos modelos de negócio e no desenho de inovações.

Inovações como combinação de recursos.

Quando se trata de inovação em pequenas empresas, gosto de recorrer a uma autora fundamental que é Edith Penrose. A versão original de seu livro “Teoria do Crescimento da Empresa” é de 1959, mas possui uma atualidade fora do comum. O argumento básico do livro pode ser resumido da seguinte forma: as empresas são coleções de recursos produtivos, organizados pelos gestores de modo a gerar uma renda (valor/lucros) para a empresa. Dessa afirmação que aparentemente é simples, decorre uma série de observações e conclusões a respeito em como uma empresa, seja ela grande ou pequena, pode se organizar para gerar inovações e crescer a partir delas.

Como inovação podemos entender que seja a aplicação de novas ideias aos produtos, processos ou outros aspectos das atividades de uma empresa que levam ao aumento do “valor” entregue e apropriado pela própria empresa. Esse “valor” é definido de forma ampla, pois inclui tanto maior lucro para a empresa, como os benefícios concretos entregues aos consumidores. Como é o caso da Cargo X, que trabalha como uma plataforma resolvendo a dor de muitas empresas que é a logística rápida, além da dor de caminhoneiros autônomos que é sempre estar com o caminhão cheio e transportando, ou seja, agrega, entrega e se apropria do valor pois é uma das startups mais promissoras do Brasil (https://exame.com/pme/esta-startup-brasileira-esta-entre-as-mais-disruptivas-do-mundo/).

Diante disso, duas definições importantes para a inovação são:

  • Inovação de produto: a introdução de um novo produto, ou uma mudança qualitativa significativa de um produto existente.
  • Inovação de processos: a introdução de um novo processo de produção ou entrega de bens ou serviços.

Em muitos livros e artigos, alguns autores enfatizam uma terceira categoria de inovação, a de mudança organizacional da empresa, mas vemos isso como sendo naturalmente incluído na segunda categoria, como um tipo de inovação de processo.

O próprio Schumpeter (2007) além de listar essas três categorias, também definiu como inovação a abertura de um novo mercado, ou o desenvolvimento de novas fontes de fornecimento de matérias-primas. Mas é possível enquadrar isso também como atividade empreendedora e não só uma inovação.  

O empreendedor de sucesso é capaz de inovar ao colocar uma ideia ou novo modelo de negócio no mercado como resultado da combinação de recursos, seja de capital, tecnologia, conhecimento ou do apoio de lideranças políticas e institucionais.

Inovar é aplicar sua criatividade para ter uma ideia ou solução única. É uma articulação de tecnologias e conhecimentos que permite que recursos produtivos tradicionais entreguem ou façam o que antes não podiam. Você tem um motor, rodas e eixos e os combina para inventar um carro. O progresso depende da inovação e grandes inovadores podem enriquecer.

Empreendedorismo, por sua vez é aplicar a inovação, combinando recursos, para dar vida às ideias. É uma invenção social, que permite que as pessoas façam o que não podiam fazer anteriormente. Os empreendedores agarram a oportunidade de lucrar com a inovação. Eles constroem negócios e impulsionam a inovação. O progresso depende do empreendedorismo e grandes empreendedores podem ter mais sucesso e fazer mais dinheiro que grandes inovadores, e as startups citadas no texto mostram exatamente isso, a junção de inovação e espírito empreendedor.

Mas fazer dinheiro não é apenas abrir uma empresa, pois o empreendedor na perspectiva de Penrose (1959), pensa durante 24 horas por dia em como desenvolver e capitalizar os recursos produtivos de sua empresa de modo que eles gerem produtos e serviços extras e de forma continuada.

O empreendedor inovador aprende e desenvolve novos conhecimentos sobre os processos de produção de bens e serviços em sua empresa de modo a entregar novas soluções ao mercado.

À medida que o processo produtivo se desenrola, o conhecimento sobre serviços produtivos e como obtê-los a partir dos recursos aumenta e pode ser ainda melhor apropriado pela empresa, em especial pelo empreendedor, na forma de lucros e outras rendas. Isso deve motivar ao empreendedor a pensar em novas conexões e combinações entre recursos produtivos e suas posteriores entregas ao mercado.

Tais ideias, antigas e novas, fazem parte de um quebra-cabeça do qual o empreendedor espera formar uma imagem. Essa imagem é o entendimento do empreendedor sobre quais recursos a empresa possui e sobre o que eles podem criar, inovações e novos serviços produtivos.

Assim, o quanto inovador será o empreendedor e quais serviços produtivos serão criados a partir do conjunto de possibilidades produtivas que ele possui, irá depender do tipo de imagem que o empreendedor vê no ambiente externo à empresa. Ou seja, além da análise interna dos recursos da empresa, o empreendedor inovador também necessita entender a dinâmica de seu ambiente competitivo para poder criar as inovações que lhes tragam sustentabilidade de longo prazo para a empresa.

Entendendo os ambientes de operação empresarial e o desafio da inovação.

Voltando a noção de que a inovação é fruto da combinação dos recursos produtivos da empresa, e o empreendedor é o grande “maestro” na organização desses recursos de modo que eles consigam entregar as soluções inovadoras para o mercado, nota-se que o entendimento do mercado, do ambiente externo é fundamental para que o ajuste (market fit), seja o melhor possível.

Antes de implementar algum esforço para o design da estratégia da empresa, que invariavelmente será um esforço na direção de combinações e recombinações dos recursos competitivos da empresa, já comentados antes, é importante o entendimento da cadeia de causalidades que ligam passado, presente e futuro e que impactam positiva ou negativamente no desempenho das empresas.

Ressalta-se aqui que a inovação, a novidade e a solução de problemas de mercado deve ser a atividade principal de toda e qualquer empresa nesse século XXI.

Os principais recursos produtivos de uma empresa é cada vez mais a criatividade, o design e a tecnologia, que podem ser associados, combinados ou complementados pelos recursos produtivos tradicionais, gente com talento e o capital, para o desenvolvimento de soluções inovadoras de baixo custo, alto desempenho, lucrativas, sustentável, amplamente acessível para a população geral e de impacto para a sociedade.

Esse é o desafio da inovação.

A inovação e contexto empresarial

Então, para entender o ambiente externo, seus impactos nas empresas e em seus processos de inovação, é importante que o empreendedor domine algumas ferramentas que podem ser utilizadas para avaliar a natureza do ambiente competitivo e identificar relações de causa e efeito em mudanças nos comportamentos dos concorrentes e demais agentes que interagem com a empresa, direta ou indiretamente.

O design thinking é uma abordagem fundamental e que opera como pano de fundo para o desenvolvimento de inovações, pois, os processos ligados ao design permite entender os problemas do mercado e do contexto da empresa, entregando produtos e serviços inovadores e com encaixe nas demandas do mercado.

planejamento no contexto de inovação.

Um exemplo bem claro dessa questão é a atual emergência das empresas digitais e baseadas em tecnologia, onde muitas delas trabalham com vários modelos de negócio paralelos, testando-os, até encontrar o modelo que apresenta melhor encaixe com o mercado (market-fit).

É possível observar isso nos market-places digitais, que vem ganhando visibilidade dia após dia com várias empresas brasileiras que antes atuavam no varejo tradicional se transformando em empresas de tecnologia, como é o caso mais recente da MAGALU. O processo que hoje resulta na MAGALU como empresa de tecnologia remonta 15 anos atrás quando seu atual CEO foi designado para ser o responsável pelo processo de incorporação das tecnologias de informação e comunicação nas estratégias da empresa, àquela época já estava claro para muitas grandes empresas o impacto das TIC nas estratégias de negócios, que hoje está ameaçando fortemente a sobrevivência do varejo tradicional de pequenas empresas.

Essa visão, ou imagem, conduziu a empresa MAGALU, em combinar suas lojas físicas, tecnologia, excelência logística e capacidade empresarial para desenvolver uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil.

Assim, diante desse quadro, a concorrência e a tecnologia são dois elementos que estão impactando fortemente nas empresas sobreviventes da pandemia. Ferramentas analíticas utilizadas em conjunto com o pensamento estratégico, flexível e enxuto, necessários para as pequenas e médias empresas na atualidade, permitem testar e trazer aprendizado organizacional em relação as possíveis estratégias de negócios.

Nos próximso posts serão apresentas 3 ferramentas populares e simples que podem ser utilizadas para analisar a cadeia de causalidade entre o passado, presente e futuro de eventos que possam afetar o futuro desejável do empreendedor para a empresa, bem como irão deixar mais visível as possibilidade de combinações de recursos para o desenvolvimento de inovações.

Referências:

PENROSE, E. A teoria do crescimento da firma. (E. da Unicamp, Org.). Campinas, 2006.

SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. SciELO-Editora UNESP, 2017.

Relacionadas