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A inovação frugal e o desenvolvimento local.

A inovação frugal e o desenvolvimento local.

Pequena empresa | 20/06/2022

A inovação frugal é a capacidade de “fazer mais com menos” – desenvolver produtos de alta qualidade e criar mais valor comercial e social, minimizando o uso de recursos cada vez mais escassos, como energia, recursos naturais, capital e tempo.

A economia frugal e sua decorrencia, a inovação frugal, é um fenômeno que vem surgindo no mundo desde o início dos anos 2000, com a ascensão das camadas mais baixas da população mundial considerando o consumidor da Base da Pirâmide, por C. K. Prahalad (https://bityli.com/VWaxxu). No Brasil ficou conhecida como a nova classe média, que impulsionou o mercado de bens de consumo entre 2004 e 2014, e gerou dinâmica de desenvolvimento em muitos setores manufatureiros de bens de capital.

Portando, os sinais não são novos, mas só agora, particularmente após a pandemia de COVID-19, é que os fundamentos da economia frugal foram mais difundidos em quase todas as instâncias do sistema econômico, seja em países emergentes ou nos países do centro econômico mundial (https://www.wgsn.com/insight/p/article/88870).

Mas no contexto dos países emergentes e periféricos, a economia frugal se adequa ao desenho de novos processos produtivos, produtos e serviços adaptados às condições de oferta e demanda das comunidades e regiões desses países. Ou seja, geralmente esses países apresentam desenvolvimento dual, onde regiões prósperas e altamente tecnificadas convivem com regiões que apresentam vazios institucionais, restrições de recursos e uma produção com baixa incorporação tecnológica. Nesse contexto de oferta e demanda emerge o que é conhecido como inovações frugais.

O conceito aplicado de forma ampla para todos os mercados permite considerar que a inovação frugal seja a capacidade de “fazer mais com menos” – desenvolvendo produtos de alta qualidade, criando valor mercantil e social, minimizando o uso de recursos escassos como energia, recursos naturais, capital e tempo.

Nessa perspectiva se agrupam outras “economias” como economia circular, economia compartilhada, economia criativa e tecnologias sociais. Compartilhamento de ativos como automóveis, imóveis, laboratórios makers ajudam a reduzir o impacto do consumo de equipamentos e recursos naturais de maior valor, por exemplo. E, se compartilha e recicla itens de consumo como roupas, eletrodomésticos e bens duráveis, com impacto direto no meio-ambiente na possibilidade de redução da pegada de carbono na fabricação e consumo desses itens.

Inovação frugal e regiões periféricas

Mas, tratando a inovação como perspectiva de desenvolvimento para regiões periféricas, a inovação frugal pode fazer parte do pacote de ferramentas capazes de incluir a produção local na cesta de consumo regular da população. Haja vista que pequenos produtores locais enfrentam enorme dificuldade em acessar mercados que na maioria das vezes é dominado por grandes empresas.

Produção de calçados de couro de tilápia em Piranhas (https://alagoasfeitaamao.com.br/estacao-cangaco)

A lista de produtos e serviços potenciais é grande, mas atualmente, ao menos em Alagoas, é possível já observar esse conjunto de produtos sendo manufaturados incorporando, mesmo de forma involuntária, princípios da inovação frugal. Produtos como o Mel do Sertão; plantas comestíveis não convencionais (PANCs); artesanato e obras de arte do interior; bebidas alcoólicas e não alcoólicas produzidas com ingredientes da mata atlântica; caatinga ou sertão, farinhas de tubérculos substitutas do trigo importado; alimentos processados a partir de tubérculos; frutas locais e proteínas animal in natura típicas da caatinga e sertão, além de alimentos in natura, mas com processos de produção agrícola e distribuição fortemente vinculados ao uso de tecnologias digitais.

Outros esforços em relação ao uso de tecnologias sociais, aqui consideradas como a abordagem social da inovação frugal, podem ser identificados no site da Fundação Banco do Brasil, que mantém um banco de dados de tecnologias sociais (https://transforma.fbb.org.br/). Outro banco de dados importante é Articulação Semiárido Brasileiro (https://www.asabrasil.org.br/mapatecnologias/), com as cisternas, banco de sementes crioulas, cisterna para água de produção, entre outras. Essas tecnologias são frugais ao possuir características de amplo acesso para a população de baixa renda, baixo custo de produção e altamente sustentáveis.

Esses são claros exemplos de inovação frugal disponíveis para territórios periféricos, onde o ambiente para a inovação encontra vazios institucionais (educação escassa, falta de apoio da administração pública e financiamento) e escassez de recursos, e que o processo inovador deve ser orientado para construir meios e fins, em fazer mais com menos, para muitos.

Economia frugal, modelos de negócio e o empreendedorismo popular.

O modelo tradicional de produção e distribuição de mercadorias no mundo está em debacle desde a grande crise de financiamento em 2008, se aprofundou com o Brexit e a pandemia de COVID 19 em 2020, e tende a se manter instável após a crise da Guerra na Ucrânia em 2022. Esses eventos têm sinalizado para um mundo multipolar, onde a globalização caminha para regressão e as economias globais tentam reconstruir internamente suas bases industriais. A chamada deglobalização.

Essa já ocorre na prática com muitas ações de governos europeus e americano, e na teoria têm-se uma forte discussão a respeito da redução intencional nas taxas de crescimento de muitos países, o degrowth, por conta das mudanças climáticas e a necessidade de controlar o consumo de recursos naturais, particularmente os de origem fóssil. Tudo isso contribui para o surgimento de um novo cenário econômico e de negócios.

Esse cenário, quase que “apocalíptico”, sinaliza uma oportunidade para países emergentes como o Brasil. Com vasto mercado interno e carente de tecnologias próprias, um novo modelo de desenvolvimento, territorialmente descentralizado precisa entrar na pauta no desenvolvimento brasileiro. Haja vista que muitas das tecnologias duras necessárias para a exploração dessa oportunidade são proprietárias, como por exemplo as tecnologias da informação e comunicação nas primeiras e segundas camadas (empresas de software e hardwares de processamento e de distribuição da rede), os químicos e farmacêuticos em geral, existem oportunidades na biotecnologia e na produção de bens e serviços de tecnologia dominada (low tech) para atender o mercado regional.

Seria uma espécie de política voltada à coesão regional, tentando reduzir desigualdades crônicas entre as regiões brasileiras. Essa política passa pelo incentivo ao empreendedorismo mais inovador, considerando que apenas no Nordeste são cerca de 3.800 milhões microempreendedores individuais (MEI) e microempresas (ME). Minimamente inovador no sentido de novos produtos e serviços orientados para melhorias de processos de manufatura, aumento da conveniência e acesso à mercados e redução de custos.

Os modelos de negócio inovadores, aqui entendidos e que devem ser trabalhados regionalmente, devem atender critérios de confiabilidade, conveniência e custos dentro da perspectiva da inovação frugal, englobando o (re)desenho de produtos, processos, serviços e sistemas que permitem melhorar as condições de acessibilidade para a baixa renda sem sacrificar o valor para o usuário.

Esse tipo de visão implementada no desenho de modelos de negócio das empresas locais são fundamentais para servir de alavanca para uma forma diferente de tratar de desenvolvimento em regiões periféricas como o Nordeste brasileiro, por exemplo.

Várias situações já são realidade na Índia e China, com produtos e serviços diversos dentro da perspectiva da inovação frugal, como automóveis, equipamentos de saúde, medicamentos, formas de financiamento da baixa renda, eletrodomésticos, bens de consumo e alimentos. Os exemplos desses países surgiram em condições não muito diferentes das encontradas no Nordeste (https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-030-67119-8_9).
Os modelos de negócio inovadores baseados no conceito de frugalidade são desenhados considerando os seguintes parâmetros:

  1. (Re)design / tecnologia:
    • Design sensível ao valor
    • Funcionalidades básicas
    • Qualidade/durabilidade boa o suficiente para o contexto
  2. Custo e acessibilidade
    • Valor para o usuário
    • Consumidores e preferências de classe média /Base da Pirâmide
  3. Ambiente de inovação
    • Recursos limitados
    • Setor informal da economia, microempreendedores individuais e pequenas empresas
    • Inovação aberta e integração com a universidade

Enfim, dado as limitações atuais em atrair grandes projetos para servir de âncora para o desenvolvimento, particularmente em regiões periféricas com mercados limitados, o empreendedorismo popular vinculado a inovação frugal é uma alternativa viável para política pública. Essa política orientada à inovação frugal e ao empreendedorismo popular é uma alternativa botton up, mais barata, social e produtivamente inclusiva, frente as caras políticas de subsídios e isenções fiscais para grandes projetos que ao fim e ao cabo aumentam ainda mais a exclusão social e concentração de renda.  

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